O que você vai ser quando seu filho crescer?

Em um país que envelhece em ritmo acelerado, uma pergunta simples provoca profundas reflexões: “O que você vai ser quando seu filho crescer?”. A inversão da lógica — geralmente direcionada às crianças — foi o ponto de partida da entrevista com a psicóloga Joana D’arc Sakai, no programa Doutor TV, ao abordar os desafios emocionais enfrentados por pais quando os filhos conquistam autonomia.

Os números ajudam a contextualizar o debate. O Brasil já soma mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa quase 16% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em apenas 12 anos, esse contingente cresceu mais de 50%. O envelhecimento populacional, portanto, não é apenas uma tendência demográfica — é uma transformação social que exige novas formas de pensar família, autonomia e propósito de vida.

A inversão necessária

Durante a entrevista, Dra. Joana propõe uma reflexão direta: por que tantos pais estruturam todos os seus projetos exclusivamente em função dos filhos? Segundo ela, quando os filhos crescem e “batem asas”, muitos pais — especialmente mães — vivenciam sentimentos de esvaziamento, tristeza profunda e, em alguns casos, até depressão.

“O crescimento dos filhos é saudável e esperado”, destaca a psicóloga. “Eles precisam buscar autonomia e construir seus próprios caminhos. O problema surge quando os pais não se prepararam emocionalmente para essa fase.”

Esse fenômeno, popularmente conhecido como “síndrome do ninho vazio”, pode revelar uma dificuldade maior: a ausência de identidade para além da parentalidade.

Amor não é aprisionamento

A especialista alerta que, quando os pais não desenvolvem projetos pessoais paralelos à criação dos filhos, podem, ainda que inconscientemente, estimular vínculos de dependência emocional. Em situações mais delicadas, surgem cobranças sutis ou explícitas, como a ideia de que o filho “deve” retribuir toda a dedicação recebida.

“Superproteção é amor sem medida”, pontua. Para ela, transformar o filho na única fonte de sentido pode gerar relações baseadas em culpa e não em liberdade.

A parentalidade, explica, não tem prazo de validade — mas também não deve ser o único papel exercido ao longo da vida. Ser pai ou mãe é parte da identidade, não a totalidade dela.

Ressignificar é amadurecer

Com o aumento da longevidade no Brasil, essa discussão se torna ainda mais urgente. Se as pessoas vivem mais, também passam mais tempo em uma fase da vida em que os filhos já são adultos. Isso exige ressignificação.

Entre os caminhos apontados pela psicóloga estão:

  • Retomar hobbies e interesses antigos;
  • Investir em novos cursos ou projetos pessoais;
  • Reacender a vida conjugal;
  • Fortalecer vínculos sociais;
  • Buscar autoconhecimento por meio da psicoterapia.

“A psicoterapia é um canal potente para que a pessoa se reconecte consigo mesma”, afirma. Segundo ela, quando os pais se permitem redescobrir desejos e propósitos, toda a família se beneficia — inclusive os filhos, que se sentem mais livres para seguir seus próprios caminhos.

Família com afeto e autonomia

A reflexão proposta não diminui a importância da família. Pelo contrário. Afeto, união e responsabilidade continuam sendo pilares fundamentais. O ponto central, segundo a especialista, é compreender que amar também significa permitir o crescimento.

Em um Brasil que envelhece rapidamente, preparar-se para a autonomia dos filhos é também preparar-se para uma maturidade mais ativa, consciente e emocionalmente saudável.

Afinal, se a pergunta “o que você vai ser quando crescer?” sempre acompanhou as novas gerações, talvez seja hora de os adultos também responderem à sua própria versão dela.

Dra. Joana d’Arc Sakai é doutora e mestra em Psicologia pela USP, possui especialização em Psicanálise de crianças e adolescentes. Atua com psicopedagogia, atendimentos clínicos e assessoria educacional, além de palestrar sobre Psicologia, Educação e desenvolvimento da mulher, com forte presença no meio corporativo.

Fonte: Dra. Joana D’arc Sakai | @sakaipsicologia

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